Coma somente na imaginação

dezembro 31st, 2010 § Deixe um comentário

Um novo estudo constata que imaginar que estão comendo ajuda as pessoas a comer menos.
Em experimentos na Universidade Carnegie Mellon, em Pittsburgh, relatados na “Science”, quando pessoas se imaginaram comendo doces ou fatias de queijo, a probabilidade de se empanturrarem com os alimentos reais diminuiu.
Esse tipo de dieta mental soa contraintuitiva, pois todos nós estamos familiarizados com o fenômeno oposto: pensar em comida nos faz sentir vontade de comer.
Existe um fenômeno chamado sensibilização ou reação a estímulos: se você se imagina comendo chocolate, seu desejo por chocolate aumenta, e o pensamento pode levá-lo a literalmente ficar com água na boca.
Do mesmo modo, imaginar o cheiro ou a visão de um cigarro intensifica o desejo do fumante de acender um cigarro.
Depois de algum tempo, esse efeito é contrabalançado por fenômeno igualmente bem documentado chamado habituação. Do mesmo modo como você se ajusta a luzes fortes e deixa de se incomodar com cheiros ruins, você se habitua a um alimento à medida que o consome.
“Depois de comer o primeiro cheeseburguer no White Castle” (um restaurante), “seu desejo por hambúrguer provavelmente estará ainda mais forte do que estava antes de começar a comer”, diz Carey Morewedge, psicólogo na Carnegie Mellon e autor principal do artigo. “Mas, quando começar a comer o oitavo cheeseburguer, é provável que essa vontade já tenha diminuído.”
De acordo com Morewedge e seus colegas Young Eun Huh e Joachim Vosgerau, os experimentos promovidos pela Carnegie Mellon são os primeiros a demonstrar que a habituação a alimentos pode ocorrer quando se pensa em comer, simplesmente.
Para que ocorresse o efeito, foi preciso “comer” muito, mentalmente, e era específico para cada alimento testado: os que se imaginavam comendo doces não perdiam o desejo de devorar um queijo.
O comer imaginário não deixava as pessoas se sentindo saciadas, nem mudava suas opiniões sobre os alimentos que comiam.
A influência da mente sobre o estômago foi demonstrada em 1998 em um experimento feito com dois homens cujas funções mentais eram normais, exceto por uma forma grave de amnésia. Eram incapazes de se recordar de um acontecimento por mais de um minuto. Seus hábitos alimentares foram estudados por pesquisadores da Universidade da Pensilvânia comandados por Paul Rozin.
Depois de cada um dos homens almoçar, a comida era levada embora da mesa. Alguns minutos mais tarde, um pesquisador aparecia com uma refeição idêntica e anunciava: “O almoço chegou”. Os homens sempre comiam novamente. Então, depois de os pratos serem retirados, e passados alguns minutos, um terceiro almoço era servido, e os homens o consumiam.
Quando os pesquisadores tentaram reproduzir o experimento com um grupo de controle feito de pessoas com memórias normais, todas recusaram o segundo almoço. Diferentemente dos homens com amnésia, todas sentiam menos fome depois de comer.
Agora parece que memórias de alimentos imaginários podem afetar o desejo das pessoas de comer. Leonard Epstein, especialista na habituação à comida, disse que está impressionado com o estudo do Carnegie Mellon. Psicólogo em Nova York, diz que os resultados suscitam perguntas interessantes.
“Será que é possível reproduzir os efeitos ao longo do tempo ou eles só funcionam uma ou duas vezes?”, ele perguntou. “Funcionam para todo o mundo, incluindo os obesos? Funcionam com todos os alimentos?”
Morewedge diz que é cedo para responder ou para dizer se a ideia vai funcionar com substâncias que provocam dependência, como o tabaco.
Se sim, talvez as pessoas pudessem ser habituadas de modo a reduzir outros hábitos ou dependências indesejados, como o desejo sexual, o desejo de fazer compras ou o hábito de procrastinar.
Morewedge diz que o processo de habituação é inibido pela variedade; portanto, para que ocorresse com outras atividades que não o ato de comer, seria preciso imaginar o mesmo ato sendo realizado exatamente da mesma maneira. “Não adiantaria simplesmente imaginar um bife inteiro”, ele explica. “Seria preciso imaginar-se comendo o bife, um pedaço de cada vez.”

JOHN TIERNEY, em ensaio para o The New York Times, publicado na Folha de São Paulo de 27/12/2010

Dica de álbum: “X & Y”

dezembro 31st, 2010 § Deixe um comentário

Artista: Colplay
Ano de lançamento: 2005
Gênero: Rock Alternativo

Apesar de todo o frisson causado pelo álbum “Viva La Vida or Death and All His Friends”, pessoalmente considero “X & Y” o melhor álbum do Coldplay. Chris Martin e banda conseguiram manter o alto nível criativo dos discos anteriores, compondo belas canções como “Talk”, “The Hardest Part”, “Speed of Sound” e “A Message”. Uma excelente pedida para quem procura rock alternativo de bom gosto e de fácil audição.

Clipping do dia 31/12/2010

dezembro 31st, 2010 § Deixe um comentário


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Grato ao destino

dezembro 30th, 2010 § Deixe um comentário

O deputado Tiririca (PR-SP) começa a aprender o que fazem as pessoas no emprego que ganhou de 1,5 milhão de seus fãs. Se se aplicar, logo terá dominado tanto a etiqueta do cargo (que obriga a dirigir-se aos colegas como Vossa Excelência e, ao se referir a eles para terceiros, mudar o tratamento para Sua Excelência) como sua liturgia, composta de emendas, dispositivos, quóruns, regimes de urgência, adiamentos e a diferença entre o valor de um voto contra ou a favor de um projeto.
Mais difícil será, para o deputado Tiririca, lidar com o dinheiro de que, de repente, passou a dispor na sua vida pessoal. Habituado à instabilidade de empregos em mafuás, circos e TVs, ele se vê agora com um salário de R$ 25.703,00 -15 vezes por ano, sem possibilidade de atraso ou beiço. E, para não se sentir desenturmado fora do plenário, poderá povoar seu gabinete com funcionários até R$ 60 mil por mês.
Deputados não gastam dinheiro com gasolina, aluguel de carros e passagens aéreas. Muito menos com telefone, telégrafo, internet, estafeta ou pombo-correio. Uma verba extra de cerca de R$ 30 mil mensais cuida dessas despesas.
Aluguel, nem pensar: se o deputado Tiririca não aceitar morar num apartamento funcional pelos dois ou três dias por semana que passar em Brasília, receberá R$ 3 mil por mês de auxílio-moradia.
Se quiser exercitar seus dotes recém-adquiridos de leitura e escrita, o deputado Tiririca terá direito à assinatura anual de cinco jornais e revistas e a utilizar os serviços gráficos da Câmara, podendo imprimir anualmente o equivalente a quatro mil exemplares de 50 páginas, não importa se de textos técnicos ou poéticos.
Enfim, com um salário tão generoso e benesses nunca sonhadas, quero crer que o deputado Tiririca, grato ao destino que o colocou ali, periga ser o político mais incorruptível da história de Brasília.

RUY CASTRO, em artigo para a Folha de São Paulo de 27/12/2010

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dezembro 28th, 2010 § Deixe um comentário

A internet estatal

dezembro 28th, 2010 § Deixe um comentário

A discussão sobre a internetbras no país sintetiza a falta de compreensão atávica da realidade incrustada em certos bolsões de pensamento no PT.
O Brasil, como se sabe, é um dos países nos quais se cobra um dos preços mais altos do planeta pelo acesso à rede mundial de computadores. Para completar, o serviço é de péssima qualidade. Esse ambiente ocorre por causa do capitalismo mesozoico no setor.
O leitor que já usou internet no Brasil sabe: é mais fácil lotar o Morumbi com torcedores do Asa de Arapiraca do que achar alguém que nunca tenha experimentado em casa um infortúnio com o acesso à web. O serviço é interrompido sem aviso prévio. Empresas vendem planos de acesso de 10 giga, 20 giga, 100 giga e não entregam nem a metade desse tipo de conexão. É um faroeste completo.
Com regulação e fiscalização eficazes, os embusteiros seriam expelidos. Empresas sérias cobrariam o valor real pelo serviço. Haveria competição verdadeira, sob regras impostas pelo poder público.
Lula não se interessou em produzir esse tipo de regulação. Petistas graúdos passaram a gestar uma solução estatal, o Plano Nacional de Banda Larga: acesso à web por R$ 35 ao mês. Como?
O governo montará uma grande rede (em parte já instalada). Colocará os cabos à disposição de provedores, cuja contrapartida será oferecer serviço bom e barato.
Dilma Rousseff emitiu sinais a favor da ideia. A presidente eleita pode estar bem-intencionada, mas talvez devesse refletir mais.
Haverá de saída uma guerra interna no PT para dominar esse novo naco do governo. Ao mesmo tempo, a pouca ou nenhuma regulação sobre os provedores privados atuais tende a diminuir.
A energia gasta com a internetbras seria mais bem empregada impondo regras rígidas ao setor. Mas aí não haveria cargos para a companheirada em nova estatal.

FERNANDO RODRIGUES, em artigo para a Folha de São Paulo de 27/12/2010

Clipping do dia 27/12/2010

dezembro 27th, 2010 § Deixe um comentário

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